Apidya' Special Review – O clássico do Amiga volta a ferroar com força no PlayStation 5

Existem jogos que envelhecem presos à época em que foram lançados e existem aqueles que, mesmo décadas depois, continuam capazes de mostrar por que conquistaram uma legião de admiradores. Apidya pertence claramente ao segundo grupo. Lançado originalmente em 1992 para o Amiga, o shoot 'em up desenvolvido pela alemã Kaiko conseguiu algo bastante incomum para sua época: pegou a estrutura tradicional dos shooters horizontais, trocou naves espaciais por insetos e transformou jardins, lagos, esgotos e ambientes orgânicos em campos de batalha absolutamente insanos. Mais de três décadas depois, Apidya' Special resgata essa ideia para o PlayStation 5 em um projeto que vai muito além de simplesmente colocar o jogo antigo dentro de um emulador. Trata-se de uma reconstrução feita do zero, baseada no clássico e também em materiais produzidos para uma antiga conversão de console que acabou abandonada nos anos 1990.


Essa decisão faz uma diferença enorme. Apidya' Special carrega a essência de um título lançado em 1992, mas sua apresentação não passa a sensação de um produto simplesmente retirado de um arquivo histórico e colocado em uma loja digital. Existe um cuidado evidente em fazer com que o jogo continue sendo Apidya, preservando sua identidade, sua lógica de fases, sua dificuldade e até determinadas excentricidades de design, ao mesmo tempo em que recebe uma apresentação mais adequada às telas atuais. É justamente essa relação entre preservação e modernização que se torna um dos maiores acertos desta nova versão.

Apidya' Special se divide em cinco grandes mundos temáticos: Meadow, Pond, Sewers, Cyber e Lair. Cada região possui personalidade própria e pode apresentar vários estágios, além de encontros contra chefes e fases especiais escondidas. A edição atual anuncia 20 chefes únicos, fazendo com que a campanha tenha uma quantidade considerável de confrontos para um projeto que permanece extremamente fiel à filosofia arcade.

A história acontece em uma época identificada como 19XX D.C. e acompanha Ikuro e Yuri. A aparente tranquilidade da vida do casal é destruída pela intervenção de Hezaae, um poderoso feiticeiro ligado à magia negra. O vilão utiliza criaturas e abelhas mutantes para atacar Yuri, que acaba gravemente envenenada. Diante da possibilidade de perder sua amada, Ikuro decide reagir de uma maneira que apenas um videogame produzido nos anos 1990 poderia considerar perfeitamente normal: ele utiliza magia para assumir a forma de uma pequena, porém extremamente armada, abelha.

O primeiro contato com Meadow já demonstra perfeitamente o que torna Apidya' Special especial. O cenário é colorido, existe vida por todos os lados e a pixel art consegue transmitir uma sensação quase agradável de passeio por um jardim. O problema é que praticamente qualquer coisa naquele jardim pode tentar matar Ikuro. Insetos aparecem em diferentes formações, obstáculos ocupam partes importantes da tela e rapidamente fica evidente que observar apenas os inimigos não será suficiente.

Essa é uma característica fundamental do jogo. Apidya' Special exige atenção simultânea ao posicionamento da abelha, aos projéteis, aos inimigos, ao cenário e às oportunidades de coletar melhorias. Existe uma precisão quase cirúrgica em algumas passagens. Um movimento exagerado pode colocar Ikuro diretamente contra uma parede ou no caminho de um disparo. Por isso, sobreviver está muito mais relacionado a aprender o comportamento das fases do que simplesmente possuir bons reflexos.

Quem conhece Gradius rapidamente reconhecerá a principal inspiração do sistema de evolução. Determinados inimigos deixam flores depois de serem destruídos. Cada flor coletada movimenta um marcador dentro de uma barra de power-ups localizada na parte inferior da tela. O jogador decide quando utilizar aquilo que acumulou. Pode gastar rapidamente para obter uma melhoria mais simples ou continuar recolhendo flores até alcançar opções mais poderosas. Entre as possibilidades estão melhorias de velocidade, bombas, diferentes tipos de disparo, drones auxiliares e escudo.

Parece um detalhe pequeno, mas essa mecânica é responsável por boa parte da estratégia de Apidya' Special. Imagine estar cercado por inimigos, voando com uma configuração relativamente fraca e perceber que já existem flores suficientes para ativar alguma coisa. Usar imediatamente pode melhorar suas chances naquele exato momento. Esperar um pouco mais pode liberar algo muito mais importante para o restante da fase. O problema é sobreviver tempo suficiente para isso.

Existe constantemente essa pequena discussão interna entre segurança e ganância. E ela funciona muito bem porque a morte pode ter consequências pesadas dependendo das configurações utilizadas. Uma tentativa praticamente perfeita pode se transformar rapidamente em desastre caso Ikuro seja atingido em uma seção complicada e precise recuperar parte do poder ofensivo.

Esse é um daqueles shoot 'em ups em que ficar forte transmite uma sensação maravilhosa. Com upgrades acumulados, drones auxiliando, uma boa arma e proteção disponível, Ikuro parece capaz de atravessar qualquer coisa. O fluxo da fase muda completamente. Inimigos que antes representavam perigo passam a desaparecer antes mesmo de ocupar uma posição confortável na tela.

Visualmente, Apidya' Special no PlayStation 5 é um belo exemplo de como atualizar pixel art sem eliminar a personalidade do material original. A equipe não tentou transformar Apidya em um jogo 3D, não utilizou modelos excessivamente polidos e também não abandonou a estética que o tornou reconhecível. O remake combina materiais clássicos com novos elementos em pixel art e adiciona efeitos de parallax pensados para a apresentação em widescreen.

O resultado é extremamente colorido. Meadow tem vegetação vibrante e aquela sensação de natureza ampliada. Pond altera completamente a atmosfera colocando Ikuro em contato com um ecossistema aquático. Sewers troca boa parte da beleza natural por ambientes desagradáveis e contaminados. Cyber aumenta a presença dos elementos tecnológicos. Lair finalmente representa a aproximação do confronto decisivo.

Mas talvez a melhor decisão da equipe tenha sido não obrigar ninguém a utilizar apenas essa apresentação modernizada. Apidya' Special permite alternar entre widescreen HD e uma visualização 4:3 inspirada diretamente na experiência original. Quem quiser abraçar ainda mais a nostalgia pode utilizar efeitos de CRT, incluindo scanlines, shadow mask e phosphor bloom.

Em uma televisão moderna, essas opções são muito interessantes porque transformam completamente a personalidade da imagem. O widescreen oferece mais impacto e aproveita melhor o tamanho das telas atuais. Já a apresentação clássica cria quase uma janela para 1992. Não existe uma escolha universalmente superior. A melhor parte é justamente poder decidir qual interpretação de Apidya deseja utilizar.

Para quem conheceu o jogo no Amiga, a possibilidade de revisitar a aparência clássica possui um valor histórico enorme. Para quem está descobrindo Apidya agora, o modo renovado provavelmente será a porta de entrada mais confortável. Essa flexibilidade demonstra que Team Apidya e ININ Games compreenderam exatamente o tipo de público que esse projeto precisava atender.

No PlayStation 5, Apidya' Special encontra uma excelente oportunidade para conquistar um público que talvez nunca tenha sequer encostado em um Amiga. Não é necessário conhecer o original para entender suas qualidades. Na realidade, quem chega sem nostalgia talvez consiga perceber ainda melhor o quanto algumas ideias de 1992 continuam eficientes.

O sistema de power-ups ainda cria tensão. Os padrões dos inimigos continuam oferecendo satisfação quando dominados. A variedade visual continua excelente. Os chefes continuam memoráveis. A música continua sendo um dos pilares da experiência. E aquela vontade de fazer “só mais uma tentativa” continua sendo perigosamente eficiente.

Para veteranos, existe algo ainda mais especial. Não estamos falando apenas de rever cenários conhecidos em resolução maior. Existe a sensação de encontrar um jogo antigo preservado por pessoas que claramente compreendem aquilo que precisa permanecer intacto. Apidya' Special não tenta pedir desculpas por ser Apidya.

Ele ainda é difícil.

Ainda é estranho.

Ainda exige memorização.

Ainda pune erros.

Ainda possui uma história absolutamente maluca sobre amor, vingança, magia negra e uma abelha armada.

E justamente por isso funciona.

Apidya' Special mostra que preservar um clássico não significa congelá-lo no tempo. É possível modernizar a apresentação, oferecer novas configurações e abrir as portas para jogadores menos acostumados com a brutalidade dos shooters antigos sem retirar do jogo aquilo que originalmente lhe deu personalidade. Team Apidya e ININ Games encontraram um equilíbrio bastante competente entre essas duas necessidades.

Um retorno feito com respeito ao passado, mas que não depende exclusivamente dele para justificar sua existência. É nostalgia para quem esteve lá em 1992 e, principalmente, um excelente shoot 'em up para quem acaba de descobrir que uma das criaturas mais perigosas dos videogames pode ser simplesmente uma abelha apaixonada e extremamente bem armada.



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