AVIÃOZINHO DO TRÁFICO PRÉ 4: SOBRARAM DEMONIOS DO PORTAL PRO INFERNO NA FAVELA QUE ABRI E AGORA TENHO QUE SALVAR OS MAMADAS DO RONALDO provavelmente já conquistaria atenção apenas pelo tamanho e pela insanidade de seu nome, mas por trás da piada existe um boomer shooter surpreendentemente comprometido com a estética dos FPS clássicos. Desenvolvido por Joeveno, o título utiliza a id Tech 2 e assume sem qualquer vergonha sua inspiração no primeiro Quake, misturando tiros rápidos, movimentação agressiva e um humor tipicamente brasileiro.
A história continua os acontecimentos de AVIÃOZINHO DO TRÁFICO 3. Depois de salvar Mit Aia, Mackie Jackie e os Mamadas, parecia que finalmente haveria algum descanso. A comemoração acontece literalmente no céu, mas obviamente a tranquilidade não dura muito. Os Mamadas acabam sequestrados por Ronaldo McDalest, que também coloca as mãos no Globeceta, o carro capaz de abrir portais. Para piorar a situação, ainda existem demônios espalhados pelo Brasil depois da invasão provocada anteriormente. A missão passa então a envolver não apenas o resgate da banda, mas também eliminar o que restou das criaturas e impedir que a situação fique ainda mais absurda.
É justamente essa mistura de acontecimentos completamente sem noção que dá personalidade ao jogo. A campanha passa por locais inspirados no Rio de Janeiro, São Paulo e Salvador, além de levar a aventura novamente para cenários envolvendo o Inferno e até o Céu. O roteiro nunca tenta ser levado totalmente a sério e funciona como uma grande homenagem aos mods brasileiros, jogos piratas dos anos 2000, memes, música nacional e à cultura da internet brasileira.
Nos combates, a influência dos shooters clássicos aparece imediatamente. Não existe espaço para permanecer parado esperando os inimigos aparecerem. Correr, saltar, utilizar double jump e dash faz parte do ritmo das batalhas, criando confrontos rápidos nos quais movimentação é tão importante quanto acertar os disparos. Existe aquela sensação familiar dos FPS dos anos 90, mas com mecânicas suficientes para deixar a locomoção consideravelmente mais veloz e moderna.
A id Tech 2 também combina perfeitamente com a proposta. Visualmente, tudo carrega aquele aspecto bruto e angular da geração Quake, algo que poderia parecer simplesmente ultrapassado em outro projeto, mas aqui funciona como parte essencial da identidade. Cenários estranhos, inimigos grotescos e referências brasileiras transformam a aparência retrô em uma escolha artística deliberada.
O humor certamente será o elemento mais divisivo. AVIÃOZINHO DO TRÁFICO PRÉ 4 não tenta ser discreto, sofisticado ou politicamente comportado. Piadas absurdas, nomes propositalmente exagerados e referências aparecem constantemente. Para quem entra esperando justamente essa insanidade, existe muito carisma; quem procura uma narrativa tradicional provavelmente encontrará uma experiência completamente diferente do esperado.
Mesmo cercado por memes e brincadeiras, o que mais surpreende é perceber que existe um FPS competente sustentando toda a loucura. O combate tem velocidade, a movimentação incentiva agressividade e a estética retrô combina perfeitamente com a proposta. É aquele tipo de jogo independente que sabe exatamente o que deseja ser e transforma suas limitações em personalidade.
AVIÃOZINHO DO TRÁFICO PRÉ 4: SOBRARAM DEMONIOS DO PORTAL PRO INFERNO NA FAVELA QUE ABRI E AGORA TENHO QUE SALVAR OS MAMADAS DO RONALDO é estranho, exagerado e propositalmente caótico, mas também demonstra bastante carinho pela era dos boomer shooters e pela cultura brasileira dos anos 2000. Por trás do título gigantesco e das piadas existe uma experiência rápida e divertida que consegue fazer algo cada vez mais difícil: ter identidade própria.




